GESTO X DISCURSO
Reproduzo abaixo um artigo do advogado José Paulo Cavalcanti Filho, a respeito da força do exemplo, onde um simples gesto vale muito mais que um discurso ou uma boa entrevista coletiva.
A força do exemplo
José Paulo Cavalcanti Filho
Sandro (Alessandro) Pertini tinha, em julho de 1978, quase 82 anos. E acabou sendo o sétimo Presidente da Itália. Eleito não por seus méritos de jurista, ou por seu passado na resistência clandestina ao fachismo - que tantas vezes o levou à cadeia. Mas em razão de um impasse, no Congresso, entre conservadores da Democracia Cristã e Comunistas do PCI.
Mais velho Deputado, e de partido nanico (o PSI, com só 2 Deputados), a idéia é que seria facilmente substituído, tão logo um dos blocos formasse maioria. Mas, já no primeiro fim de semana após essa eleição, mostrou que não seria tão fácil. No aeroporto de Fiumicino (Roma), foi visto comprando passagem com dinheiro do seu próprio bolso. Para ir a Milão ver a mulher, que estava enferma. Os repórteres perguntaram por que, sendo Presidente, não usava o avião presidencial. A resposta mostrou a força do seu caráter:
- “Quando for a Milão como Presidente, uso o avião. Mas agora vou só ver Voltolina. E o povo não tem que pagar essa passagem”. Conquistou o respeito dos italianos. Virou símbolo de retidão. E passou 10 anos no cargo. Pensei em Pertini, essa semana, ao ler nos jornais dois casos concretos que poderiam ser exemplares. E não foram.
Primeiro o Presidente Lula. Assistiu, no avião Presidencial, CD pirata de “Dois Filhos de Francisco”. Emprestado por auxiliar. Tornado público o fato, a assessor do planalto limitou-se a dizer que o Presidente não sabia da sua procedência. E fim de papo.
Perdeu boa oportunidade de marcar posição, a favor dos direitos autorias. Bastaria, dia seguinte, ir às Lojas Americanas. Entrava, comprava 2 CDs novos e pagava - com recursos seus e não do Tesouro, claro. Com um dos CDs ficaria - por gostar do filme, até poderia dizer. Os amigos sertanejos, que fizeram sua campanha presidencial, iriam adorar. O outro daria de presente ao auxiliar. O recriminaria por adquirir um “genérico”. E pediria que o destruísse, na frente dos repórteres. Um gesto que valeria mais que cem discurso contra a pirataria.
Depois Mike Tyson. Meteu-se novamente em arruaça. Dia seguinte, quis ser simpático com nosso povo. E apareceu com uma camisa de jogador de futebol, que ganhou de amigo Maradona. Uma camisa da ... Argentina. Pior idéia, impossível. Faltou-lhe uma alma caridosa para dizer que, nos gramados, aquela camisa não era muito popular por aqui. Melhor faria se comprasse por dez pratas, no camelô da esquina, uma da seleção brasileira. Deu tudo errado. Quis ser exemplo de esportista, acabou processado por agressão. Se burrice fosse crime, estaria preso.
Cito dois casos, na mesma semana, só por serem próximos no tempo. Mas cada um de nós tem dezenas de outros na memória. Em que um comportamento valeria mais que mil palavras. É assim desde cedo. Quem tem filho sabe a importância de andar em boas companhias. É que a força desse exemplo, em sociedades desestruturadas e com baixa escolaridade como a nossa, acaba sendo formadora de comportamentos. Em todos e cada de nós se afirmando essa tendência de reproduzir modelos.
Esse como que mimetismo inclusive transcende classes sociais. Ricos usam caminhonetas importadas, de preferência blindadas, como símbolo de poder; enquanto pobres sonham com as roupas e os batons da novela das 8, as sandálias de Xuxa, e continuam a fumar cigarros que são “um sucesso”. Nessas situações todas, com a força do exemplo contribuindo para formar um rosto bem nosso, como povo.
Em uma peça de Brecht, diz Andréa – “infeliz do povo que não tem heróis”. Ao que responde Galileu, a seu discípulo – “Não, infeliz do povo que precisa de heróis”. De minha parte, digo diferente - infeliz mesmo é o povo que precisa e não tem heróis. Sobretudo heróis que, para além dos discursos, se afirmem pela força do exemplo.
P.S. Com relação ao golpe nas assinaturas de revistas, tratado na última coluna, perdi a conta dos leitores que também foram vítimas. Entre eles Sílvio Dantas – que, hoje, simplesmente deixou de atender chamadas do Rio. Para não ter enfarte. De raiva. Até quando?, senhores da Polícia.
José Paulo Cavalcanti Filhoé advogado e mora no Recife
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